A falta de um micronutriente importante para a fixação biológica do nitrogênio diminui a qualidade do grão e o mercado consumidor fica em alerta.

A busca pelo aumento da produtividade da soja virou quase uma obsessão entre os agricultores brasileiros nos últimos anos. A referência eram os americanos que, a cada ano, ampliavam verticalmente o tamanho de suas colheitas. Mas, será que isso não trouxe impactos na qualidade do grão e na quantidade de nutrientes no solo? Segundo o doutor em agronomia e pesquisador do instituto de Ciências Agronômicas (Incia), Elmar Luiz Floss, ambos registraram perdas em alguns quesitos importantes sim.

Diante da futura demanda por alimentos, prevista pela FAO até 2050, a soja ganhou um papel fundamental nesta história. Isso porque, ela é a principal fonte de proteína vegetal para a produção de carnes, que terá um forte crescimento no consumo até lá. “O grão de soja é uma rica fonte de proteínas para os animais, com índice de 37% a 40% do nutriente. Sem falar que esta proteína vegetal é a única que tem a qualidade nutritiva, valor biológico e outras vantagens em um mesmo grão”, comenta Floss durante sua palestra no 2º Fórum Soja Brasil – Safra 2017/20148, que aconteceu em Esteio (RS).

Para se ter uma ideia do que representa este volume de proteína no grão, o produtor que colheu 4 toneladas de soja por hectare, considerando uma média de 40% de proteína, tirou do campo, 1,6 mil quilos de proteínas. “Claro que para conseguir toda esta proteína é necessário muito nitrogênio. Nenhuma outra cultura precisa tanto de nitrogênio para produzir uma tonelada de grãos. A soja, dependendo da cultivar e condições climáticas, precisa de pelo menos 80 quilos de nitrogênio para produzir uma tonelada de grãos. Se precisássemos colocar todo esse nitrogênio no campo de uma vez, a cultura seria inviável economicamente”, explica Floss.

Segundo o professor a soja é uma ótima fixadora de nitrogênio e, 85% ,destes 80 quilos necessários podem vir da fixação biológica. Desde que o agricultor faça todos os anos a inoculação de sementes, para ter uma produção economicamente viável com foco no que o cliente deseja, ou seja, a proteína da soja. “Lembrando que os outros 15% deste nitrogênio necessário deve vir do solo, nem que seja com fertilizantes químicos”, ressalta.

E é exatamente ai que começam os problemas. Floss relembra que muitas vezes os produtores não fazem a análise de solo periódica, para saber quais nutrientes estão faltando e aplicando somente o necessário. Muito menos uma análise da planta para saber qual foi o teor de conversão dos nutrientes. “Chamamos isso de adubação racional, que é ver a necessidade da agricultura em função do rendimento. Ou seja, após uma análise periódica dos nutrientes do solo, saber quanto tinha, quanto foi expressado na planta e quanto ficou no solo”, diz o professor.

Floss ressalta que ter alta produtividade não significa ter também alta qualidade no grão. Neste caso bastante proteína. “Na safra que passou muitas cargas brasileiras de soja tinham menos proteína do que o exigido pelo mercado, na média de 33%. Os chineses já começaram a reclamar disso. E com excesso de oferta poderão optar por soja da Argentina, Paraguai e Uruguai, que tem mais proteína”, afirma.


Solução barata

Claro que aliar produtividade a qualidade é o ideal e, segundo o professor, não é algo caro. A primeira coisa a fazer, todos já fazem, ou deveriam: usar sementes de qualidade. “Neste quesito temos um fator importante, semente de qualidade não é a com maior germinação, mas sim a que possui maior vigor. Isso sim, é importante. Se ela tem vigor, pode notar que a germinação é boa”, diz.

O segundo passo também é algo que a própria Embrapa considera básico na agricultura, a inoculação destas sementes. “Isso é algo tão barato e eficiente que não dá para acreditar que alguém ache que está economizando ao deixar de inocular”, comenta Floss. “Aliado a esta inoculação está o ponto mais importante para a fixação biológica, um macronutriente chamado molibdênio.”


A importância do molibdênio

O molibdênio é um pequeno micronutriente que ajuda a sobrevivência da bactéria que fixa o nitrogênio na planta. Floss comenta que nos últimos três anos rodou o país inteiro analisando o solo e as folhagens das plantas para saber os nutrientes que mais faltavam em cada. “Para minha surpresa o nutriente que mais faltava no solo é o molibdênio e depois dele é o nitrogênio. Sem este micronutriente a fixação biológica é ineficiente e aqueles 15% de nitrogênio que a planta deveria retirar do solo, ela não consegue. O resultado disso não é a menor produtividade, mas sim um menor teor de proteína na soja”, ressalta Floss.

Aliar o uso do molibdênio aos processos atuais não é caro e muito menos complicado. Primeiramente a recomendação é aplicar o micronutriente durante a inoculação das sementes. Segundo Floss, todas as sementeiras já deveriam fazer isso. Depois, recomenda-se fazer mais uma aplicação aérea durante o uso dos herbicidas. “Precisamos de no máximo 25 gramas por hectare na semente e 50 gramas de molibdênio na pulverização aérea. Isso custará no máximo meia saca de soja por hectare”, ressalta.

Na parte aérea, o molibdênio entra na fase V3 ou V4 junto com o herbicida, no mesmo compartimento, explica Floss. “Ele aumenta a fixação biológica do nitrogênio no solo e na folha. Ai o grão fica mais pesado, gera um rendimento melhor e teremos a qualidade do grão que o mundo demanda”, conta o especialista. “A coisa é tão séria que seria útil lançarmos uma campanha de conscientização sobre a importância do molibdênio.”

E para aqueles que acham que a planta só ganha em qualidade a boa notícia é que além disso, a produtividade aumenta entre 8 e 10 sacas por hectare, garante Floss.


Reportagem: Daniel Popov, de São Paulo
Fonte: Projeto Soja Brasil